
As três perguntas que todo RH deveria fazer para antecipar a perda de talentos
A saída inesperada de um talento sempre causa impacto. Muitas vezes, a empresa só percebe que algo estava errado quando o funcionário já tomou sua decisão. Mas será que a perda de talentos realmente acontece de forma tão súbita?
O segredo pode estar em fazer as perguntas certas, no momento certo. Pequenos sinais, muitas vezes ignorados, podem ser a chave para evitar grandes perdas. Aqui estão três perguntas essenciais que RHs e líderes deveriam se fazer regularmente.
1) “Se pudesse mudar algo no seu trabalho hoje, o que seria?”
A insatisfação raramente surge de um grande evento. Na maioria das vezes, ela se acumula lentamente, através de pequenas frustrações diárias. Muitos gestores acreditam que, se um funcionário não reclama, ele está satisfeito. Mas a realidade é que a maioria das pessoas não expressa suas preocupações abertamente, seja por receio ou por achar que nada mudará.
Passei por isso como CEO de uma companhia com centenas de funcionários em todo o Brasil. De repente, talentos de primeira linha começaram a sair, e as explicações dos gestores não me convenciam. Determinei que qualquer gerente ou especialista que pedisse demissão passaria antes por uma conversa comigo.Os resultados foram surpreendentes. Consegui reter cerca de 60% desses profissionais, não por ser o CEO, mas porque simplesmente os ouvi e busquei soluções reais para suas insatisfações. Algo que seus próprios gestores não fizeram. Pequenas ações de escuta e valorização podem fazer uma grande diferença.
2) “O que te motivaria a permanecer na empresa nos próximos dois anos?”
Muitas saídas não acontecem por insatisfação, mas por desalinhamento de expectativas. Algumas pessoas querem crescimento rápido, outras buscam equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Algumas desejam desafios maiores, enquanto outras só querem mais reconhecimento.
Já vi talentos brilhantes saírem por motivos que poderiam ter sido facilmente resolvidos. Um exemplo foi um profissional que ansiava por uma experiência internacional. Nossa empresa tinha as oportunidades e os meios para proporcionar isso, mas ninguém conversou com ele sobre suas aspirações. Ele saiu e trilhou um caminho impressionante: hoje é CEO no Brasil de uma empresa global de transporte pesado e membro do conselho mundial da companhia.
Se tivéssemos feito essa pergunta no momento certo, talvez sua trajetória tivesse sido dentro de nossa própria empresa.
3) “O que você vê no mercado que sente falta aqui?”
O mercado está em constante transformação, e novas tendências de cultura organizacional, benefícios e flexibilidade surgem o tempo todo. Empresas que ignoram esses movimentos correm o risco de ficar para trás.
Infelizmente, é comum gestores e RHs adotarem uma postura defensiva quando funcionários apontam pontos positivos em outras empresas. Já vi profissionais de RH se sentirem ofendidos ou traídos pela saída de um bom colaborador, sem perceber que o problema poderia ter sido resolvido internamente.
Em uma empresa de tecnologia que liderei, tentamos reter uma engenheira extremamente talentosa. Fizemos todas as ofertas possíveis dentro do que considerávamos viável na época. Mas, em vez de adaptarmos a empresa ao potencial dela, tentamos encaixá-la em nossas limitações.
Ela saiu, cresceu no mercado e, anos depois, tornou-se CEO no Brasil de uma das Big Five de tecnologia. Olhando para trás, ficou claro que perdemos uma grande líder porque não fomos capazes de enxergar além dos padrões tradicionais.
Conclusão: Ouvir antes que seja tarde
Essas perguntas não impedem todas as demissões, mas oferecem clareza sobre o que pode ser feito para evitar saídas desnecessárias. Muitas vezes, a solução está ao alcance das mãos, mas ninguém se deu ao trabalho de perguntar.
Se você atua em RH ou lidera uma equipe, reflita:
- Quantas saídas recentes poderiam ter sido evitadas com um simples diálogo?
- Seu time se sente à vontade para falar sobre suas expectativas e insatisfações?
- O que você poderia mudar hoje para tornar sua empresa um lugar onde as pessoas querem ficar?
A grande questão não é se os talentos vão sair. Mas se você terá feito tudo ao seu alcance para que eles queiram ficar.
Artigo original publicado em RHPRaVocê