
O grande exemplo de J.B.Conant - Ética: o ser e o parecer
Dr. James B. Conant era presidente da Universidade de Harvard quando, no início de 1941, integrou uma comitiva oficial dos EUA em viagem a Londres, a convite de Winston Churchill.
Foram meses de bombardeios intensos. Londres era fustigada noite após noite por toneladas de bombas, artefatos incendiários e projéteis de longo alcance, deixando um rastro contínuo de destruição e mortes.
Parte da população permanecia em casa. A maioria buscava refúgio nos abrigos públicos, especialmente nos túneis do metrô. À noite, toda a rede se transformava em um imenso dormitório coletivo, com famílias amontoadas, convivendo em condições desumanas e miseráveis.
Os visitantes e as famílias mais abastadas hospedavam-se, em geral, em dois hotéis: o Claridge’s e o Dorchester. O primeiro, mais nobre, estava em uma área muito mais exposta aos bombardeios. O segundo era simples, de reputação duvidosa, porém situado em uma região consideravelmente mais segura.
Riscos e Reputação
Conant tinha reserva no Claridge’s. Clementine, esposa de Churchill, recomendou fortemente que ele se transferisse para o Dorchester, por razões evidentes de segurança.
A resposta de Conant foi direta e definitiva: “Como presidente de Harvard, prefiro arriscar a minha vida do que arriscar a minha reputação.”
Naquele mesmo período, ele presidia o Comitê Nacional de Pesquisa da Defesa e, poucos anos depois, teria papel central no Projeto Manhattan. Presidiu Harvard de 1933 a 1953.
Os líderes de hoje
Ao longo da vida, conheci muitas safras de líderes públicos. Alguns aparentavam ética e agiam com ética. Outros aparentavam degradação e agiam com degradação. E houve, talvez os mais perigosos, aqueles que aparentavam ética, mas não a praticavam.
No Brasil, conheci exemplos do primeiro grupo. Também aprendi, com o tempo, a reconhecer os do último. Foram grandes decepções.
Vivemos hoje um paradoxo. Surgem líderes que renovam a esperança. Ao mesmo tempo, multiplicam-se figuras públicas que já exibem, sem constrangimento, sinais de falta de ética. Se o parecer já é esse, pouco se pode esperar do ser.
Ainda assim, confio no país e no seu povo. A História mostra que a incoerência entre valores e práticas pode durar, mas invariavelmente colapsa por autodestruição.
Um líder público deveria ser capaz de afirmar, sem hesitação, o que Conant afirmou em Londres: “...prefiro arriscar a minha vida do que a minha reputação.”
Ainda veremos muitos assim no Brasil.

