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Lições que aprendi com os meus clientes (3)

Antônio Ermírio de Morais, Presidente do Grupo Votorantim, fazia mesmo jus à lenda. Diariamente, às 5h da manhã, chegava ao Hospital Beneficência Portuguesa com seu Fiat Uno (ele mesmo o dirigia), usando um terno de linho, não raro amarrotado.

Visitava e conversava com os enfermos, rodava o hospital, despachava com o administrador e, às 8h, pontualmente, estava em seu escritório, na Praça Ramos de Azevedo.

Só me encontrava com ele nas negociações finais dos pacotes de equipamentos, com a decisão técnica já tomada. Era a hora em que os médicos me diziam: “Agora é com o Dr. Antônio Ermírio”.

Em um dos maiores pacotes já negociados, cheguei à sua mesa (depois do quebra-gelo) com o preço final definido pela matriz, que eu sabia ser muito agressivo. Se eu voltasse com alguma outra demanda, estaria mostrando minha incapacidade e arriscando meu emprego.

Depois de olhar a proposta por longos segundos de silêncio, rabiscou com a caneta um número e disse: “Volte para a sua matriz e diga que pago esse valor à vista”. Literalmente caí para trás na cadeira, dizendo que a companhia nunca aceitaria isso.

Passei longos minutos em uma insistência inútil, e, como se fosse um consolo, ele disse: “Você fez um excelente trabalho. Vou até mandar um elogio à sua pessoa, mas a reunião está encerrada.”

No dia seguinte, fiquei ensaiando minha abordagem com o outro lado. Resumindo: estávamos em novembro, ainda longe da meta de caixa (métrica tão importante quanto o lucro), e a resposta veio muito rápida: “Pegue o pedido!”.

Quando voltei lá, consternado, eu não sabia se estava feliz ou frustrado (com o orgulho ferido, talvez fosse a melhor expressão). Acho que o Dr. Ermírio (como eu também o chamava) sentiu isso, e não teve nenhuma atitude de superioridade.

Ao contrário. Convidou toda a minha família (casal e quatro filhos) para assistir a uma peça teatral, que ele ainda arranjava tempo para escrever e dirigir.

No dia marcado, ele estava na porta de entrada para a plateia, cumprimentando e agradecendo a presença de cada um. Dispendeu muito tempo conversando com cada membro da família e nos acomodou em nossos lugares. Fazia isso todas as noites de espetáculo.

Primeiro, aprendi a nunca mais dizer “nunca”. Aprendi sobre o espírito humilde de um líder altruísta, dono de um império, mas com o coração em um hospital e nas artes. Um grande exemplo a ser seguido!

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